BRASIL SOBRE DUAS RODAS

uma viagem de bicicleta

3. Bahia - 2ª Parte

CUMURUXATIBA – COROA VERMELHA

Ó meu rei...demoramos para atualizar o blog...é essa baianidade nagô...

De qualquer forma, aqui vai um breve relato do que aconteceu conosco ao cruzarmos o trecho entre Cumuruxatiba e Coroa Vermelha, no sul do estado.

Começamos a pedalada numa ensolarada manhã. Estrada asfaltada e beira-mar, com terreno plano e pouco movimento de veículos. Nessas condições, percorremos cerca de cinqüenta quilômetros sem muito esforço até Prado, nosso destino.

Após um merecido Pê-éFe e empolgados com a facilidade da estrada, decidimos estender a pedalada até Cumuruxatiba, distante trinta quilômetros.

Logo no início, o liso asfalto foi substituído por chão de terra batida, e não sabíamos do fato, mas adentrávamos uma região de falésias característica de boa parte do litoral sul baiano.

Vixi Maria e Yemanjá, o peso das bicicletas dificultava muito. Para entender melhor o terreno, sempre havia uma falésia separando uma praia da outra, e com isso o percurso consistia em subidas emendadas a descidas e assim sucessivamente.

O calor desgastava nossos já cansados corpos, e só um milagre apaziguaria a situação. Perfeito, passamos por uma praia chamada Tororão onde uma bica d’água surgia inexplicavelmente no meio daquela areia toda, e paramos para conferir.

Nos refrescamos e relaxamos com as histórias contadas por Tito Rato, cozinheiro que viajou por todo mundo a bordo de grandes embarcações, e curtia o visual da praia com sua companheira.

De volta à estrada, não demorou muito para chegarmos em Cumuruxatiba. Pela primeira vez na viagem, enfrentamos com bravura nossos “gigantes”, que não eram moinhos, e mesmo exaustos, ainda levantamos acampamento.

Permanecemos acampados por três noites sob um piso macio e boa sombra, devido as amendoeiras do local escolhido. No próprio espaço havia uma pequena cachoeira para se refrescar do forte calor. A praia ficava defronte ao terreno e era bonita, com destaque para as piscinas naturais e o píer abandonado. Notamos a cidade vazia e uma boa estrutura de hotéis e restaurantes fechados.


Partimos logo pela manhã com destino a Ponta do Corumbau, e uma vez mais enfrentamos subidas e descidas nas intermináveis falésias da região.


Em Barra do Caí, pequena vila de pescadores, obtivemos informações sobre um caminho pelo meio do manguezal, “tranqüilo para pedalar”. Com isso, economizaríamos cerca de trinta quilômetros em comparação ao percurso indicado no mapa.

Aceitamos a dica e atravessamos de canoa para a margem oposta do mangue. Pedalamos mais duas horas e chegamos em Ponta do Corumbau já no escuro. Para comemorar o dia, nada melhor do que um refrescante banho de mar.

Acampamos na ponta da praia da vila de pescadores que não possui energia elétrica. Escolhemos um local debaixo de amendoeiras com vista para a barra, que separava o mar, à direita com piscinas naturais, do rio Corumbau, à esquerda com botos como principal atrativo.



Conhecemos histórias locais com Erivaldo, proprietário de um quiosque e talhador nas horas vagas. Fizemos algumas refeições em seu restaurante e, na maioria das vezes, cozinhamos macarrão com ovos mexidos e farinha de puba para acompanhar.

Após acamparmos por três noites, atravessamos o rio num barco de pescadores e desembarcamos em reserva indígena Pataxó, conhecida por Barra Velha. Os doze quilômetros que nos separavam de Caraíva, próximo destino, eram pela praia, de tombo com areia fofa, obrigando-nos a carregar a bicicleta na maior parte do trecho. O peso das bicicletas e o sol minaram nossa força, e chegamos esgotados na pequena e simpática vila de pescadores.

Caraíva possui uma história interessante. Antes de tornar-se conhecida por suas praias e pelo forró, a pequena vila tinha como principal atividade econômica extração de madeira. Em meados de 1948 houve um acidente grave com a principal caldeira da indústria, explodindo tudo e jogando estilhaços de metal que permanecem até hoje no rio Caraíva. Assim, a maioria dos trabalhadores mudaram-se para outras cidades, restando apenas pescadores.


A cultura indígena Pataxó é difundida, também, através do rico artesanato vendido por seus descendentes na praia. Colares de semente de árvores recolhidas na própria aldeia, travessas de madeira e anéis são alguns exemplos. Não resistimos a tentação e adquirimos um colar cada. Surpreendeu a diferenciação de preço para turistas brasileiros e estrangeiros; gringo paga mais.

A vila estava tão vazia que nem conseguimos curtir a famosa noitada de forró. Depois de três noites acampados, cruzamos o rio e seguimos em direção a Trancoso.

A chuva nos acompanhou por todos os quarenta e dois quilômetros de percurso, transformando o chão de terra batida em pura lama. Soma-se a lama o difícil terreno de falésias, além dos pingos d’água caindo nos olhos, obrigando-nos a pedalar de óculos escuros. Foi uma árdua pedalada, e ainda chegamos na cidade debaixo de um temporal.

Trancoso foi fundada por padres jesuítas que procuravam por um ponto estratégico para a construção de uma igreja, e nada melhor do que o cume de uma falésia. Hoje sobrevive exclusivamente por conta do turismo, principalmente o estrangeiro.

É necessário mencionar que ficamos – Pico e Lenza – acomodados numa bela e confortável casa, por vinte dias seguidos, no principal ponto da cidade – o Quadrado – a convite dos amigos Ângela e Bruno. Aproveitamos a oportunidade para agradecer! Isso tudo porque o Cyro retornou à São Paulo para apresentação de seu mestrado.





Nesse período, curtimos as praias próximas a Trancoso, como Curuípe e Espelho, distantes vinte e cinco quilômetros. A beleza e dificuldade ao acesso justificam o título de praia mais bonita do Brasil. Tanto que repetimos o passeio; o complicado foi escolher qual das duas ir primeiro... Lá conhecemos dois guias locais, Max e Negão, que mencionaremos mais à frente.




Assim que o Cyro retornou, demos prosseguimento à viagem, dessa vez com destino a Arraial D’Ájuda. A estrada continuava difícil e, para complicar ainda mais a situação, o bagageiro dianteiro do Lenza não resistiu os impactos e arrebentou, travou o pneu e ele foi direto para o chão. Por sorte, não foi numa descida e não machucou.

Acampamos determinados a partir na manhã seguinte com destino a Coroa Vermelha, onde Max e Negão nos esperavam conforme combinamos na praia.



Para nosso alívio, as falésias terminaram e o asfalto voltou a fazer parte da viagem. Ao cruzarmos a balsa Arraial – Porto Seguro, paramos para tomar café da manhã e conhecemos um ciclista paulista chamado Ricardo, que morava em Porto Seguro e, gentilmente, nos ofereceu a internet para atualizamos o blog. Um abraço para essa galera!

Seguindo viagem, pegamos um vento contra muito forte até Coroa Vermelha. Comentávamos sobre como e onde perguntar por Max e Negão quando, repentinamente, escutamos uns gritos no meio da estrada. Eram eles, e logo fomos apresentados para Jorjão e Índio.

Contamos algumas aventuras e, surpreendentemente, fomos convidados para ficar na casa do Jorjão, no meio da aldeia indígena. A harmonia foi tamanha que toda galera tirou um som espetacular representando Bem-Vindo aos paulistas!



O avô de Jorjão é um dos Pajés da tribo, e com isso soubemos de uma curiosa história: Coroa Vermelha foi o primeiro local onde Cabral abasteceu a frota de navios com água e provisões, e é lá também que foi construída a primeira igreja do país. Quando os portugueses celebraram a primeira missa, foi implantada uma cruz de madeira de tamanho descomunal que, no ano de comemoração aos Qüinhentos Anos do descobrimento – ano dois mil – foi substituída por uma cruz de aço escovado como presente de Portugal, que por sua vez exigiu a cruz original de volta. Os índios sentiram-se tão revoltados que construíram uma cruz de madeira, pequena, colocada ao lado da de aço para simbolizar seu sentimento.


Passamos ótimos dias com o pessoal; jogamos frescobol – os caras jogam muito... – andamos de caiaque e fizemos um laço de amizade verdadeiro. E pensar que tudo aconteceu por conta de um encontro na praia do Espelho.


“Tudo que é decisivo nasce apesar de tudo”, já dizia Nietzsche, e cada vez mais essa afirmação se concretiza em nossa viagem.

Falou galera. Prometemos atualizar o blog com mais freqüência.

3. Bahia - 1ª Parte

"Sorria, você está na Bahia."

Exatamente um mês após a partida, adentramos sorrindo pelo sul do estado, parando na cidade de Mucuri depois de uma cansativa pedalada. O caminho de cinquenta e oito quilômetros contou com paisagens maravilhosas: eucaliptos, pastos, floretas, manguezal e até travessia de canoa pelo rio Mucuri com o simpático Seu Sabino.




Acordamos descansados e seguimos até Nova Viçosa, de onde pegaríamos um barco até Caravelas. A pedalada de trinta e cinco quilômetros foi tranqüila e por asfalto; chegamos no tempo limite para o último embarque do dia. Já eram três horas da tarde e prevíamos uma viagem de três horas de duração.

Começamos a jornada atrevessando um imenso manguezal até chegarmos no mar propriamente dito, o que durou cerca de uma hora e meia. Avistamos um boto em alto mar.



Navegamos por mais uma hora até entrarmos na Barra de Caravelas, onde presenciamos um belo pôr-do-sol.


Caravelas foi descoberta por Américo Vespúcio em 1503. Tem como principal atrativo a proximidade à Abrolhos, que tem esse nome por referência náutica (abra os olhos) aos arrecifes da região, e não perderíamos a oportunidade.

Aguardamos apenas a melhora no tempo para finalmente conhecer e mergulhar em Abrolhos, ainda mais considerando a época de baleias jubartes, observadas na travessia, fugindo do frio para acasalamento em águas baianas.


Embarcamos numa manhã ensolarada com destino ao arquipélago formado por cinco ilhas, com percurso estimado em duas horas de duração. Avistamos a primeira baleia com alegria e empolgação, sua força e tamanho impressionaram.




Localizamos diversas baleias na travessia, e ficamos ainda mais empolgados quando avistamos a primeira ilha do arquipélago. O mar era impressionantemente azul e muitas aves completavam esse cenário, entre elas os jatobás, fragatas e mergulhões.


O barco parou para o pessoal do Ibama subir à bordo e fazer uma palestra sobre a região e sua importância ecológica, obrigatória antes do desembarque na Ilha da Siriba, única com acesso permitido para turistas.


Fomos nadando até a ilha e descobrimos o verdadeiro ouro negro: a praia era formada por pedras de origem vulcânica, assim como todo arquipélago.


Fizemos um curto passeio entre os inúmeros jatobás, que em companhia de filhotes tornam-se agressivos. A brancura do pêlo e o amarelo do bico e olhos hipnotizavam.



Retornamos à bordo para enfim cair n'água. Só pensávamos em mergulhar e conhecer o tal coral "cérebro", existente apenas em Abrolhos. Vimos vários peixes diferentes: sargentinho, frade, borboleta, budião, donzela, barracudas e até arraias. Tivemos o privilégio de nadarmos com tartarugas verdes. Um dia inesquecível, comemorado com saltos da proa do barco na saída.



Despedindo-se de nós, diversos pássaros voaram próximos a nossas cabeças, retornando à Ilha dos Pássaros posteriormente. As pedras dessa ilha, diferente das demais, são brancas por causa das fezes das aves.



O passeio terminou com a última avistagem de três baleias nadando próximas ao barco.

Abrolhos é um local inesquecível e único. Valeu todo esforço.

Aguardem notícias sobre a 2ª Parte da Bahia.

Axé pra vocês!

2. Espírito Santo

Começamos o Espírito Santo depois de pedalarmos trezentos e quarenta quilômetros no Rio de Janeiro.

Acampamos em Guarapari por quatro dias.





Conhecemos a histórica praia de Meaípe, caminho de Pe. Anchieta na caquetização dos índios. Nessa praia, apreciamos a tradicional moqueca capixaba no restaurante do Globo Repórter!!!



O tempo mudou drasticamente, nos obrigando a percorrer o trecho até a cidade de Conceição da Barra de ônibus. Partimos de bicicleta para Itaúnas, norte do estado, por trinta quilômetros numa estrada de terra batida.


A capital do forró, como é conhecida, era uma vila de pescadores que foi soterrada pelas dunas. Hoje em dia, essa mesma duna, que nâo pára de se mover, separa a atual vila da praia. Essas dunas convidavam para um passeio e foi palco de uma bela partida de friesbee de chinelo!


Chegamos em pleno festival de forró, o 5º Festival de Itaúnas, e a cidade estava lotada de capixabas, mineiros, cariocas, paulistas e baianos ávidos para dançar e curtir. Última semana de julho.


Lenza e Cyro caíram no forró e aprovaram o estilo de dança praticado lá. Conhecemos um pessoal muito bacana nesses cinco dias: Nelinho, Douglas, Vítor, Heitor, William, Yvia, Tânia, Rafaela... Um abraço especial a todos vocês!



Aproveitamos para conhecer a praia de Riacho Doce, dentro do Parque Estadual de Itaúnas, distante dezessete quilômetros em estrada de terra batida. O visual dessa estrada nos impressionou pela quatidade de eucaliptos plantados onde anteriormente havia mata atlântica nativa. Mais uma Veia Aberta...de Eduardo Galeano.


Mais impressionante ainda era a praia de Riacho Doce, praticamente dentro de uma propriedade particular, com o rio desembocando água doce no mar. Valeu a pedalada.


Ficamos devendo nossa aparição na mídia. Aí vai...


Em breve, mais notícias de nossa viagem, agora na Bahia.


ABRAAAAMMMMMM OS OLHOS!!!